Rito Escocês Antigo e Aceito
O Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) é um rito maçônico fundamentado em sistemas de origem escocesa que se desenvolveram na França, principalmente em lojas de Paris e Bordeaux durante meados do século XVIII. Constitui o rito mais praticado no mundo, e sua estrutura abrange desde os graus simbólicos até o trigésimo terceiro grau, último de sua escala.
Características gerais
Em algumas partes do mundo e na Ordem Maçônica Mista Internacional “O Direito Humano” (Droit Humain), o REAA é um corpo concordante que supervisiona todos os graus do primeiro ao trigésimo terceiro. Em outras áreas, funciona como um corpo adjunto, com um Supremo Conselho que supervisiona os graus do quarto ao trigésimo terceiro. Os três primeiros graus (aprendiz, companheiro, mestre) são considerados graus de “Loja Azul” (Blue Lodge), não de “Loja Vermelha” (Red Lodge).
A denominação do rito pode variar conforme as jurisdições. Na Inglaterra e na Austrália, é às vezes chamado de “Rose Croix”, embora este seja apenas um de seus graus, e não deve ser confundido com outras sociedades rosacruzes maçônicas, como a Societas Rosicruciana in Anglia. As Constituições inglesa e irlandesa omitem a palavra “Scottish” (escocês) em seu nome oficial.
Origens históricas documentadas
O grau de Mestre Escocês
Existem registros de lojas que conferiam o grau de “Scots Master” ou “Scotch Master” já em 1733. A primeira loja registrada foi na taverna Devil, em Temple Bar, Londres. Outras lojas documentadas incluem a de Bath em 1735 e a loja francesa St. George de l’Observance n.º 49, em Covent Garden, em 1736.
A Cifra Copiale, datada entre as décadas de 1740 e 1760, afirma que “o posto de mestre escocês é uma invenção completamente nova”, o que sugere que esses graus superiores eram desenvolvimentos relativamente recentes na época.
Estienne Morin
Estienne Morin foi um comerciante francês envolvido na maçonaria de altos graus em Bordeaux desde 1744. Em 1747, fundou uma loja “Écossais” (escocesa) em Le Cap Français, atual Haiti. Em 27 de agosto de 1761, em Paris, foi-lhe emitida uma patente que o criava “Grande Inspetor para todas as partes do Novo Mundo”, assinada por oficiais da Grande Loja de Paris. Originalmente, este documento lhe concedia poder apenas sobre lojas simbólicas (azuis), não sobre as de altos graus. Cópias posteriores foram provavelmente embelezadas pelo próprio Morin.
Morin retornou às Índias Ocidentais em 1762 ou 1763, estabelecendo-se em Saint‑Domingue. Em 1770, em Kingston, Jamaica, criou um “Grande Capítulo” denominado Grande Conselho da Jamaica. Faleceu em 1771 e foi sepultado em Kingston.
Henry Andrew Francken
Henry Andrew Francken, nascido Hendrick Andriese Franken, de origem neerlandesa e naturalizado francês, auxiliou Morin na difusão dos graus. Morin o nomeou Deputado Grande Inspetor Geral (DGIG). Em 1771, produziu um manuscrito com os rituais do décimo quinto ao vigésimo quinto grau. Francken elaborou pelo menos quatro manuscritos: o de 1771, outro de 1783, um de data incerta (com graus quarto ao vigésimo quinto, encontrado em Liverpool por volta de 1984), e outro com graus quarto ao vigésimo quarto (dado por H. J. Whymper à Grande Loja Distrital do Punjab, redescoberto por volta de 2010). Existe também um manuscrito francês de 1790 a 1800 com os vinte e cinco graus da Ordem do Real Segredo.
Estruturação do Rito
O Rito de 25 graus
Acreditou-se que existiu um “Rito de Perfeição” de vinte e cinco graus, formado em Paris por um conselho chamado “Conselho de Imperadores do Oriente e Ocidente”. O título “Rito de Perfeição” aparece pela primeira vez no prefácio das “Grandes Constituições de 1786”, cuja autoridade sabe-se hoje ser defeituosa. Atualmente, aceita-se que este rito de vinte e cinco graus foi compilado por Estienne Morin e denomina-se mais propriamente “Rito do Real Segredo” ou “Rito de Morin”. Era conhecido como “A Ordem do Príncipe do Real Segredo” pelos fundadores do REAA, que o mencionaram em sua “Circular a ambos os hemisférios” ou “Manifesto” de 4 de dezembro de 1802.
Fundação do Primeiro Supremo Conselho
Em 31 de maio de 1801, constituiu-se em Charleston, Carolina do Sul, o Primeiro Supremo Conselho dos Soberanos Grandes Inspetores Gerais do XXXIII e Último Grau do Rito Escocês Antigo e Aceito. Deste primeiro Supremo Conselho nascem todos os demais conselhos supremos legítimos.
Chegada à Escócia
O rito não nasceu na Escócia; chegou a esse país apenas em 1846. Sua antiguidade data de 1786.
Controvérsias e lendas
Existe grande controvérsia sobre o título e a verdadeira origem do rito. As origens mitológicas da maçonaria inglesa e universal têm mais a ver com o simbólico do que com o histórico. Segundo documentos admitidos por maçons do REAA, a origem do rito teria ocorrido após a primeira Cruzada, simultaneamente na Escócia e na França, caindo em desuso a partir de aproximadamente 1648. Tal afirmação nunca pôde ser demonstrada por qualquer documento fidedigno.
Os escritores franceses Jean‑Marie Ragon (1781‑1862) e Emmanuel Rebold afirmaram que os altos graus foram criados e praticados na Loja Canongate Kilwinning de Edimburgo. Esta afirmação foi qualificada de inteiramente falsa pela historiografia maçônica.
Segundo versões não reconhecidas por historiadores maçônicos como Ragon, Joaust, Clavel, Laurens, Findel, Folger Kloss e Marconay, o sistema completo de trinta e três graus repousa sobre estatutos redigidos em Bordeaux em 1762, derivados de um documento de 1759 dos “Príncipes do Real Segredo”. Em 25 de maio de 1782, teriam sido confirmadas as Constituições de Bordeaux, quando o rito constava apenas de vinte e cinco graus.
Em 1786, o Grande Oriente da França revisou os altos graus, reduzindo-os a quatro. Os partidários do Rito Escocês, que desejavam trinta e três graus, autodenominaram-se “os antigos” e chamaram de “modernos” os partidários da renovação. Nesse momento, ampliou-se a escala para trinta e três graus e formou-se um capítulo soberano chamado Supremo Conselho do Grau Trigésimo Terceiro.
Emile Rebold afirma que Frederico da Prússia foi iniciado em 15 de agosto de 1738 em Brunswick. Marconay escreveu à Grande Loja dos Três Globos de Berlim, recebendo resposta em 17 de agosto de 1733 (data contraditória com a iniciação de Frederico) negando que Frederico fosse criador do sistema. Findel qualificou de absurdos os documentos de Bordeaux. Nega-se ao Rito sua origem prussiana.
Contexto e significado
O Rito Escocês Antigo e Aceito representa um dos desenvolvimentos mais complexos e difundidos da maçonaria especulativa. Sua história, marcada pela confluência de tradições escocesas, francesas e americanas, reflete a evolução da maçonaria de altos graus durante o século XVIII. As controvérsias sobre sua origem evidenciam a tensão entre as tradições simbólicas que os maçons transmitiram e a pesquisa histórica rigorosa. Apesar das lendas não demonstradas, os fatos documentados situam sua formação no contexto da expansão maçônica atlântica, com figuras como Estienne Morin e Henry Andrew Francken como agentes-chave em sua difusão desde o Caribe até a América do Norte. A fundação do Primeiro Supremo Conselho em Charleston em 1801 constitui o marco fundacional a partir do qual se organiza a estrutura do rito na atualidade.
Fontes