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História da Franco-Maçonaria

Redacción Cámara de Maestro · 6 de julho de 2026

Historiografia da Maçonaria

Durante muito tempo, o estudo da maçonaria ficou relegado a abordagens pouco rigorosas e foi abandonado por sociólogos e historiadores profissionais. A maçonaria constituiu-se como objeto de investigações científicas a partir de 1950-1960 na França, onde começou a ser abordada com metodologia acadêmica. Entre 1970 e 1980, acadêmicos espanhóis, portugueses, britânicos, holandeses e estadunidenses reforçaram essa dinâmica, ampliando o campo de estudo. A partir dos anos 2000, as influências francesas e espanholas convergiram para a América Latina, gerando publicações científicas e congressos internacionais que consolidaram a maçonaria como objeto legítimo da história social e cultural.

O debate sobre as origens

Existe um debate central sobre as origens da francomaçonaria, que gerou lendas apócrifas e um “folclore” que dificulta o conhecimento histórico. Os especialistas atuais sustentam a “teoria da invenção”: o surgimento da francomaçonaria foi consequência do fervor associativo e do espaço público independente da Coroa e da Igreja gerado na Europa desde a era do Iluminismo, a revolução científica e a revolução associativa. Segundo o autor Dévrig Mollès, foi a primeira expressão de uma “sociedade civil internacional”.

As neotradições fundacionais

A primeira neotradição: origens antigas

O texto fundador The Constitutions of Freemasons (Constituições de Anderson) foi redigido pelo pastor presbiteriano escocês James Anderson e pelo exilado protestante francês Jean Théophile Désaguliers. A edição inglesa de 1723 foi modificada e impressa quatro vezes entre 1723 e 1784. Na Pensilvânia, Benjamin Franklin imprimiu e difundiu o texto pela primeira vez em 1734. Segundo as Constituições de Anderson, a introdução afirmava apresentar “uma relação fiel e exata da maçonaria desde o começo do mundo”, fixado no ano 4003 a.C. segundo o relato bíblico. O relato mítico atravessava séculos do Oriente ao Ocidente, passando pela África, Assíria, Egito, Jerusalém, Grécia, Sicília, Roma, França, Inglaterra e Escócia.

A segunda neotradição: origens medievais

O relato neomedieval foi gerado pelo católico escocês emigrado para a França Andrew Michael Ramsay, que falou de “nossos ancestrais os cruzados”. Ramsay apresentou seu discurso a um ministro do rei Luís XIV, que depois proibiu essas reuniões por considerá-las ameaçadoras da ordem política. Ramsay retirou-se definitivamente da maçonaria, mas seu discurso popularizou a ideia de que a maçonaria descendia dos cruzados.

Fontes maçônicas primitivas

O manuscrito mais antigo conhecido, o Halliwell Manuscript ou Regius Poem, data de entre 1390 e 1425. Este documento afirma que o “ofício da maçonaria” começou com Euclides no Egito e chegou à Inglaterra no reinado do rei Athelstan (924-939). O Matthew Cooke Manuscript traça a maçonaria até Jabal, filho de Lameque (Gênesis 4:20-22), e dele a Euclides, depois aos Filhos de Israel no Egito, e finalmente a Athelstan. Após a formação da Primeira Grande Loja da Inglaterra, James Anderson foi comissionado para resumir essas “Constituições Góticas”. Anderson fixa a primeira grande assembleia de maçons ingleses em York, sob o filho de Athelstan, Edwin (personagem não documentado historicamente). As Constituições de Anderson de 1738 listavam os Grão-Mestres desde Agostinho de Cantuária. William Preston ampliou esse mito fundacional em Illustrations of Freemasonry. Na França, a conferência de 1737 do Cavaleiro Ramsay acrescentou os cruzados à linhagem, sob o patronato dos Cavaleiros Hospitalários.

Evolução institucional documentada

A evolução da francomaçonaria abrange três fases documentadas. A primeira corresponde ao surgimento de lojas organizadas de maçons operativos durante a Idade Média. A segunda fase envolve a admissão de membros leigos como “aceitos” ou “especulativos”. A terceira fase é a evolução de lojas puramente especulativas e o surgimento de Grandes Lojas para governá-las. O marco fundacional da maçonaria especulativa moderna é a formação da primeira Grande Loja em Londres em 24 de junho de 1717 (calendário gregoriano). A partir deste momento, a instituição se expandiu pela Europa e América, adotando diversas formas organizacionais e rituais.

Especulações históricas e mitos posteriores

Segundo a tradição maçônica, o ritual mais antigo conhecido situa a primeira loja maçônica no pórtico do Templo de Salomão. Tentou-se traçar a maçonaria até Euclides, Pitágoras, Moisés, os essênios e os culdeus. Preston começou sua história com os druidas. Anderson descreveu os maçons como “noaquidas”, extrapolado por Albert Mackey, incluindo Noé. Os Cavaleiros Templários se envolveram no mito a partir do Rito de Estrita Observância de Karl Gotthelf von Hund, vinculado também à exilada Casa de Stuart. O assassinato de Hiram Abiff foi tomado como alegoria da morte de Carlos I da Inglaterra. Oliver Cromwell aparece como fundador da maçonaria em uma obra anônima antimaçônica de 1745, atribuída ao abade Larudan. Mackey qualifica as proposições de Larudan como “absolutamente independentes de toda autoridade histórica”. Os escritos antimaçônicos de Christoph Friedrich Nicolai envolveram Francis Bacon e os rosacruzes. A conexão de Christopher Wren com a maçonaria foi omitida no primeiro livro de Constituições de Anderson, mas apareceu no segundo, quando Wren já havia morrido. A afirmação de que Carlos II foi feito maçom nos Países Baixos durante seu exílio (1649-1660) é uma declaração sem apoio documental, feita por John Noorthouk em 1784. John Robison, em sua obra de 1797 Proofs of a Conspiracy, acusou a maçonaria de estar infiltrada pela Ordem dos Illuminati de Weishaupt. A Encyclopædia Britannica denunciou a falta de erudição de Robison. Um livreiro alemão e maçom em Paris, sob o pseudônimo C. Lenning, embelezou a história em um manuscrito intitulado “Enciclopédia da Maçonaria” (provavelmente 1822-1828), revisado e publicado por Friedrich Mossdorf (1757-1830).

Contexto e significado

A história da francomaçonaria ilustra a tensão entre o mito fundador e a pesquisa histórica rigorosa. Durante séculos, a instituição construiu relatos de origem que a vinculavam com a antiguidade bíblica, os construtores medievais ou os cruzados, relatos que cumpriam funções identitárias e legitimadoras. No entanto, a historiografia acadêmica, desenvolvida principalmente desde meados do século XX, permitiu distinguir entre lenda e fato documentado, situando o nascimento da maçonaria especulativa moderna no contexto do Iluminismo e da revolução associativa europeia. A maçonaria constitui, assim, um objeto de estudo privilegiado para compreender a formação da sociedade civil internacional, as redes de sociabilidade ilustrada e os processos de construção identitária na modernidade.

Fontes