Antimaçonaria
Antimaçonaria é o conjunto de atitudes e práticas de desconfiança, crítica, oposição, discriminação, repressão ou perseguição dirigidas contra a maçonaria. Em sua acepção mais ampla, designa toda forma de oposição declarada a esta instituição, que tem dado origem historicamente a múltiplas manifestações de discriminação religiosa, perseguição violenta e supressão legal em diversos países e no seio de distintas religiões organizadas, principalmente as religiões abraâmicas.
Distinguem-se duas vertentes: a crítica doutrinal ou filosófica, que questiona os princípios ou práticas maçônicas a partir de posicionamentos teológicos ou ideológicos, e a perseguição política e jurídica, que se traduz em éditos, leis restritivas, proibições ou violência contra os maçons e suas organizações. Ambas coexistiram ao longo da história com intensidades e motivações diferentes conforme o contexto.
Origens e primeiros documentos
O primeiro documento antimaçônico conhecido data de 1698, quando foi impresso em Londres um folheto redigido por um ministro presbiteriano chamado Winter. O texto adverte contra os “Freed Masons”, aos quais qualifica de “seita diabólica” e “Anticristo”, e exorta os leitores a não se misturarem com eles. Este escrito constitui o testemunho mais antigo conservado de oposição pública à maçonaria e reflete a animosidade que a instituição despertou desde suas primeiras décadas de existência organizada.
O contexto desta primeira manifestação antimaçônica é o da Inglaterra posterior à Revolução Gloriosa, onde as tensões religiosas entre protestantismo e catolicismo e as suspeitas em relação às sociedades secretas criavam um clima propício para a difusão de panfletos denunciatórios.
Antimaçonaria religiosa
A oposição religiosa à maçonaria tem sido uma constante histórica, particularmente intensa no seio das religiões abraâmicas. As críticas teológicas questionaram o caráter adogmático da instituição, sua tolerância em relação a distintas crenças e sua metodologia iniciática, considerada por alguns incompatível com a ortodoxia religiosa.
Um marco significativo foi a realização do Congresso Antimaçônico Internacional em Trento (Itália) em 1896, patrocinado pelo papa Leão XIII e pelo Império Austro-Húngaro. Este evento consolidou a coordenação dos esforços antimaçônicos de inspiração católica e deu projeção internacional às denúncias contra a instituição.
A maçonaria, por sua vez, define-se a si mesma como adogmática, integrada por livres-pensadores e humanistas, tolerante e democrática. Autodefine-se como instituição iniciática e filosófica, escola moral, e nega ser uma religião, embora sua metodologia iniciática tenha formulação ritualística e liturgia. Esta autodefinição tem sido objeto de controvérsia permanente com seus críticos religiosos.
Antimaçonaria política por países
Alemanha
Em 22 de junho de 1784, o príncipe-eleitor da Baviera, duque Carlos Teodoro, aprovou um édito contra os Iluminados da Baviera, a maçonaria e qualquer sociedade não autorizada por lei. Este decreto constitui um dos primeiros exemplos de proibição estatal da maçonaria na Europa.
Posteriormente, o regime nacional-socialista proibiu a maçonaria na Alemanha e a submeteu a perseguição sistemática, por considerá-la uma fonte potencial de oposição.
Chile
No Chile, o dirigente independentista José Miguel Carrera denunciou a Loja Lautaro por desavenças políticas, chamando-a de “órgão de corrupção”. Carrera havia sido iniciado na Loja de São João n.º 1 da Filadélfia em março de 1816.
Segundo algumas acusações, não comprovadas, a loja esteve implicada na morte de Manuel Rodríguez, assassinado, ao que parece, por ordens desta. Bernardo O’Higgins, Grão-Mestre da loja, depôs seu cargo após estes fatos. Estes acontecimentos não são atribuídos à maçonaria em si, mas a conflitos entre lojas específicas, e têm provocado movimentos antimaçônicos no Chile.
Costa Rica
No final do século XIX, foi fundado na Costa Rica o partido União Católica, de orientação antimaçônica. Um dos requisitos para ser membro era não ser maçom, o que evidencia a articulação política da oposição à instituição.
Cuba
O caso cubano apresenta particularidades notáveis. Nos regimes de esquerda, a maçonaria foi geralmente ilegalizada, exceto em Cuba. Durante a Revolução e os primeiros tempos do governo revolucionário, a maçonaria apoiou a Revolução, mas a radicalização posterior provocou que alguns altos funcionários abandonassem o país.
O ex-Grão-Mestre J. J. Tarajano fundou nos Estados Unidos a Grande Loja de Cuba no exílio, reconhecida na Conferência de Grandes Mestres de Washington. No entanto, os maçons cubanos proclamam que a Grande Loja com sede em Havana é a única regular, reconhecimento que finalmente foi dado na V Conferência da Confederação Maçônica Interamericana. Em Miami encontra-se a Grande Loja de Cuba no exterior, não aceita como legítima pela maçonaria americana.
Em 1962, o governo cubano fechou o templo maçônico de Havana e prendeu os Grão-Mestres. Após estas etapas de repressão, a maçonaria cubana entrou em decadência. Desde 1982, com a abertura do sistema a instituições não governamentais, o número de adeptos tem aumentado. A Grande Loja de Cuba aceita tem sede em Havana, e Cuba é um dos países latino-americanos com maior número de maçons: 314 lojas e aproximadamente 29.000 irmãos.
Segundo o folclore cubano, Fidel Castro “desenvolveu um carinho pelos maçons quando lhe deram refúgio em uma loja maçônica” nos anos 1950, embora se trate de uma afirmação lendária não documentada. Também se afirmou, sem verificação, que Castro manteve os maçons “com uma rédea curta” por considerá-los um elemento subversivo e possível refúgio de dissidentes.
Equador
Durante a segunda presidência de Gabriel García Moreno, foram proscritas as sociedades secretas e foi negada a cidadania a seus membros, o que implicou uma proscrição das atividades maçônicas no país.
Egito
Em 1952, após a derrubada do rei Faruk por Gamal Abdel Nasser, a maçonaria foi proibida no Egito.
Espanha
Antes da Primeira Guerra Mundial, o carlista Juan Vázquez de Mella apresentou às Cortes uma petição para declarar a maçonaria ilegal, considerando-a facciosa e traidora à pátria, e solicitou a expulsão dos maçons dos empregos públicos. Em 1927, sob a ditadura, ocorreram novas medidas contra a instituição.
Estados Unidos
Em 1826, William Morgan desapareceu em Batavia, Nova York. Alegou-se que foi sequestrado e assassinado por maçons após ameaçar publicar os rituais. O desaparecimento é um fato histórico, mas a autoria maçônica é uma alegação não comprovada.
O desaparecimento de Morgan provocou protestos e suspeitas contra a maçonaria que levaram à criação do Partido Antimaçônico, sob a liderança de Thurlow Weed. O partido apresentou candidatos presidenciais em 1828 e 1832, e dissolveu-se em 1835, exceto na Pensilvânia. William A. Palmer (Vermont) e Joseph Ritner (Pensilvânia) foram eleitos governadores em plataformas antimaçônicas.
John Quincy Adams, presidente durante o caso Morgan, objetou o juramento de segredo e declarou: “A maçonaria deveria ser abolida para sempre. É má – essencialmente má – uma semente de mal que nunca pode produzir bem”. Adams estendeu sua tolerância aos maçons que se haviam unido antes do desaparecimento de Morgan, dos quais disse que haviam sido surpreendidos e que haviam prestado os juramentos sem refletir.
Foram aprovadas leis reguladoras e restritivas em vários estados. Em Vermont (1833), foi promulgada legislação antimaçônica, incluindo a criminalização de prestar e tomar juramentos desnecessários. O estado de Nova York promulgou uma Lei de Ordens Beneficentes para regular tais organizações.
Ásia
Em 1938, um representante japonês no congresso Welt-Dienst / World-Service, organizado por Ulrich Fleischhauer, declarou que a “judéo-maçonaria” forçava a China a atacar o Japão e que o Japão estava em guerra não com a China, mas com a maçonaria (Tiandihui), representada pelo general Chiang Kai-shek, sucessor do maçom Sun Yat-sen.
Europa
No século XIX, a denúncia intensa da maçonaria por seu suposto controle da sociedade e do governo tornou-se doutrina padrão do pensamento e da ação contrarrevolucionários, segundo apontam os historiadores Simon Sarlin e Dan Rouyer.
Críticas doutrinais e debates internos
A maçonaria tem sido objeto de críticas doutrinais que questionam seus fundamentos filosóficos e seu comportamento ético. O pensador Alain de Benoist a descreve como “sociedade secreta mas visível”, aludindo ao paradoxo de uma instituição que mantém reservas sobre seus rituais, mas desenvolve uma atividade pública visível.
Foi criticada a desviação das três colunas maçônicas (Força, Sabedoria, Beleza) em relação aos três transcendentais do ser (Verdade, Bondade, Beleza). No contexto político, alegou-se que a maçonaria especulativa (posterior a 1723) era ambígua em relação à traição, ao contrário da maçonaria operativa. A antiga Enciclopédia Católica alega que a desaprovação maçônica da traição não é moral, mas por inconveniência para outros maçons.
Frente a estas críticas, cita-se Albert Mackey: “Se a traição ou a rebelião fossem crimes maçônicos, quase todos os maçons das colônias americanas em 1776 teriam sido expulsos”. A maçonaria atribui a seus membros o dever de serem “súditos pacíficos, leais a seu governo e justos com seu país”, e de não apoiarem a deslealdade ou a rebelião.
Os regimes comunistas perseguiram a maçonaria, exceto em Cuba. Escritores maçônicos afirmam que a linguagem dos regimes totalitários é similar à de outros críticos modernos da maçonaria.
Conclusão
A antimaçonaria constitui um fenômeno histórico recorrente que tem adotado formas muito diversas: desde a crítica teológica e doutrinal até a perseguição política violenta, passando pela discriminação legal e a criação de partidos políticos especificamente antimaçônicos. Seu estudo requer distinguir entre fatos documentados – éditos, leis, declarações, congressos – e lendas ou alegações não comprovadas, como a autoria maçônica de certos crimes ou o suposto refúgio de Fidel Castro em uma loja. Esta distinção é essencial para compreender um fenômeno que tem acompanhado a maçonaria desde suas origens.