A Maçonaria na Alemanha
A maçonaria na Alemanha designa o conjunto de organizações fraternais de caráter iniciático estabelecidas nos territórios germânicos desde o século XVIII, bem como sua história, seus ritos e suas instituições. Essas organizações, que a tradição maçônica faz proceder das guildas medievais de canteiros, consolidaram-se na Alemanha como espaços de sociabilidade ilustrada e experimentaram um desenvolvimento singular, marcado pela criação de numerosas Grandes Lojas, pelo aparecimento de um sistema próprio — a Estrita Observância —, pelas tentativas de unificação, pela perseguição durante o nacional-socialismo e por seu renascimento no pós-guerra.
Origens (1729-1754)
A maçonaria chegou à Alemanha no segundo quarto do século XVIII, quando alguns alemães ingressaram em lojas inglesas antes de existirem lojas em território germânico. Entre eles conta-se Albert Wolfgang, conde de Schaumburg-Lippe. Em 1729, o conde Thuanus foi nomeado Grão-Mestre Provincial da Baixa Saxônia pela Grande Loja da Inglaterra, embora não se tenha registrado atividade alguma. Em 1733, “onze cavaleiros alemães” foram admitidos em Londres e receberam permissão para fundar uma loja em Hamburgo, sem que haja evidência de que o conseguiram.
A primeira loja alemã documentada foi fundada em 6 de dezembro de 1737 em Hamburgo, com o nome de “Loge d’Hambourg”, sem pertencer a nenhuma Grande Loja. Em 1743, seu segundo mestre a registrou em Londres como loja número 108 e recebeu o título de Grão-Mestre Provincial; nesse mesmo ano, a loja passou a chamar-se “Absalom zu den drei Nesseln”. Em 1738, em Dresden, o conde Rutowski fundou a “Loge aux trois aigles blancs”, da qual surgiram mais duas lojas em dois anos. Por volta de 1754, já existiam dezenove lojas na Alemanha.
A Estrita Observância (1750-1782)
A maçonaria alemã desenvolveu um sistema particular: o Rito de Estrita Observância, surgido em meados do século XVIII, que introduziu os graus superiores nas lojas germânicas. Sua figura central foi Karl Gotthelf von Hund, que afirmou ter sido iniciado nesses graus por jacobitas escoceses que, segundo seu relato, guardavam segredos templários e que tinha a missão de reviver a Ordem do Templo na Alemanha. Após o fracasso da revolta jacobita de 1745, von Hund perdeu contato com seus “superiores desconhecidos” (unbekannten Oberen).
Em 1764, ao tentar restabelecer o contato, desmascarou um impostor chamado George Frederick Johnson, que se fazia passar por jacobita exilado. As lojas enganadas por Johnson colocaram-se então sob a autoridade de von Hund, consolidando-se assim a Estrita Observância, que se tornou a forma predominante da maçonaria alemã. Após a morte de von Hund em 1776, foi eleito sucessor o príncipe que mais tarde reinaria como Carlos XIII da Suécia.
A ordem começou a distanciar-se da pretendida descendência templária no convento de Lyon, onde surgiram os “Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa” (Chevaliers de la Cité Sainte bienfaisants). No convento de Wolfenbüttel (1778), a Grande Loja Mãe Nacional “As Três Globos” retirou-se por razões políticas. Finalmente, em 16 de julho de 1782, celebrou-se o Convento de Wilhelmsbad, que em cinquenta dias rejeitou a lenda da descendência templária e dos superiores desconhecidos, com o que a Estrita Observância deixou de existir.
Consolidação das Grandes Lojas (1740-1846)
Ao longo do século XVIII e da primeira metade do século XIX, fundaram-se na Alemanha numerosas Grandes Lojas, reflexo da fragmentação política do território. As principais, com suas datas de fundação, são as seguintes:
- 1740: Grande Loja Provincial de Hamburgo.
- 1741: Loja Mãe “l’Union” de Frankfurt.
- 1741: Grande Loja da Alta Saxônia.
- 1744: Grande Loja Real Mãe “As Três Globos”.
- 1744: Grande Loja Mãe “Zur Sonne”.
- 1770: Grande Loja Territorial dos Maçons da Alemanha.
- 1783: Grande Loja Mãe da Federação Maçônica Eclética.
- 1798: Grande Loja da Prússia chamada “Royal York da Amizade”.
- 1811: Grande Loja de Hamburgo.
- 1811: Grande Loja Territorial da Saxônia.
- 1846: Grande Loja Maçônica “Concord (Zur Eintracht)”.
Essas Grandes Lojas operavam de maneira independente, cada uma com seus próprios ritos e estruturas administrativas, embora compartilhassem os graus fundamentais da maçonaria simbólica: aprendiz, companheiro e mestre.
Tentativas de unificação (1801-1871)
Desde 1801, por sugestão de Friedrich Ludwig Schröder, fundaram-se “clubes de lojas” com o fim de coordenar esforços. O primeiro clube reuniu a Grande Loja Provincial de Hamburgo, a Grande Loja de Hannover e a Grande Loja Royal York da Amizade. Em 1810, fundou-se a “Sociedade Maçônica das Três Grandes Lojas de Berlim”, integrada pelas Três Globos, pela Grande Loja Territorial e pela Royal York. O clube de Hamburgo concentrou-se em questões científicas, enquanto o de Berlim ocupava-se de aspectos administrativos; este último cessou sua atividade em 1823.
Em 1839, formou-se o “Clube de Grão-Mestres das Três Antigas Grandes Lojas Prussianas”, que existiu até 1935. Em 1868, Gustav Heinrich Warnatz, Grão-Mestre vitalício da Grande Loja da Saxônia, fundou a primeira associação alemã de grão-mestres, que se reuniu em Berlim na loja das Três Globos. Seguiram-se reuniões em Dresden (1869), Hamburgo (1870) e outras cidades, embora a unificação plena nunca tenha sido alcançada.
Século XX: perseguição e renascimento
Nos anos 1920, os maçons alemães foram hostilizados, juntamente com os judeus, por aqueles que acreditavam nos Protocolos dos Sábios de Sião, e foram culpados pela derrota alemã de 1918. Essa campanha de difamação culminou com a supressão da maçonaria pelo regime nacional-socialista em 1935. Muitos maçons, tanto na Alemanha quanto nos países ocupados, foram executados ou enviados a campos de concentração.
Após a Segunda Guerra Mundial, a maçonaria retornou à Alemanha e reorganizou-se gradualmente. Atualmente, um único órgão central representa cinco Grandes Lojas consideradas “regulares”. Junto a elas, existem também lojas liberais, femininas e mistas, que refletem a diversidade do panorama maçônico alemão contemporâneo.
Distinção entre fatos e tradições
Deve-se distinguir entre os fatos documentados e as tradições ou lendas que circulam no âmbito maçônico. A pretendida descendência templária dos graus superiores da Estrita Observância foi uma afirmação de Karl Gotthelf von Hund não verificada historicamente e foi rejeitada oficialmente no Convento de Wilhelmsbad de 1782. Do mesmo modo, a atribuição da derrota alemã de 1918 aos maçons foi uma crença difundida por seus detratores, sem fundamento documental. Pelo contrário, as datas de fundação de lojas e Grandes Lojas, a existência da Estrita Observância e sua dissolução, e a supressão nazista de 1935 são fatos constatáveis.
Referências
- Wikipédia em espanhol: “Francmasonería”.
- Wikipédia em inglês: “Freemasonry in Germany”.