Origens: A Grande Loja da Inglaterra de 1717
Introdução: O Limiar da Modernidade Maçônica
O dia 24 de junho de 1717 marca um ponto de inflexão na história universal do pensamento associativo. Em uma taverna londrina denominada Goose and Gridiron (o Ganso e a Grelha), quatro lojas maçônicas da Inglaterra se congregaram para estabelecer a primeira Grande Loja da história moderna. Este evento não foi uma criação ex nihilo, mas a cristalização formal de um processo de transformação profunda: a transição da maçonaria operativa, grêmio de construtores medievais, para a maçonaria especulativa, um movimento de pensamento livre que incorporaria intelectuais, filósofos, comerciantes e homens de ciência.
O que ocorreu naquela assembleia fundacional foi mais do que um ato administrativo: foi o estabelecimento de uma estrutura que permitiria a expansão global de ideais universais de fraternidade, igualdade de direitos e busca racional do conhecimento. Durante os séculos seguintes, esta instituição se tornaria um dos principais vetores do Iluminismo e do pensamento progressista ocidental.
O Contexto Histórico: A Maçonaria Operativa em Transição
Para compreender a fundação de 1717, é essencial conhecer o estado da maçonaria inglesa nas décadas prévias.
As Lojas Operativas Medievais
Durante a Idade Média e o Renascimento, a maçonaria foi principalmente um grêmio de artesãos. Os maçons operativos, assim chamados porque sua ocupação era a construção em pedra, organizavam-se em lojas adscritas a catedrais, castelos e edifícios públicos. Estes grêmios gozavam de privilégios especiais:
- Mobilidade profissional: podiam viajar entre reinos e cidades sem restrições, o que facilitava o intercâmbio de técnicas construtivas avançadas.
- Segredos profissionais: guardavam zelosamente seus métodos de talhe de pedra, geometria aplicada e técnicas estruturais.
- Hierarquia artesanal: aprendizes, oficiais e mestres conformavam uma estrutura vertical baseada em mérito e experiência.
Na Inglaterra, a maçonaria operativa atingiu seu apogeu durante os séculos XIV e XV com a construção das grandes catedrais góticas. No entanto, a partir do século XVI, o declínio da construção medieval e a transformação da arquitetura rumo a novos estilos (como o Renascimento e posteriormente o Barroco) reduziram drasticamente a demanda por maçons especializados.
A Admissão de Especulativos: Um Giro Crucial
Entre os séculos XVI e XVII, as lojas operativas inglesas começaram a admitir membros que não exerciam a profissão de maçom. Estes novos afiliados, advogados, médicos, eruditos, nobres e comerciantes, denominaram-se especulativos. Gradualmente, a ênfase da organização deslocou-se do técnico-profissional para o filosófico e moral.
Esta mudança foi revolucionária. As lojas, que originalmente existiam para regular a profissão de canteiros, transformaram-se em clubes de pensamento onde a geometria era interpretada como metáfora do universo racional, onde a construção de templos materiais representava a edificação moral do ser humano.
A documentação desta transição é fragmentária, mas há referências em registros escoceses do século XVI que atestam a iniciação de especulativos. Na Inglaterra, o processo foi similar, embora menos documentado inicialmente. Para 1717, a maioria dos membros das lojas inglesas era já especulativa, embora se mantivesse a nomenclatura e a estrutura hierárquica da maçonaria operativa.
Os Protagonistas: Figuras Chave de 1717
Jean-Théophile Desagulliers
Jean-Théophile Desagulliers (1683-1744) foi uma das personalidades intelectuais mais brilhantes da Londres do início do século XVIII. Nascido de família huguenote francesa (seu pai era pastor protestante), Desagulliers foi educado em Oxford onde se especializou em física experimental e matemática.
Sua trajetória é extraordinária:
- Clérigo da Igreja Anglicana: ordenado sacerdote, foi reitor em várias paróquias e capelão de nobres influentes.
- Cientista experimentador: colaborador próximo de Isaac Newton na Royal Society of London, dedicado a vulgarizar os princípios newtonianos mediante demonstrações públicas de física experimental.
- Engenheiro prático: projetou máquinas hidráulicas e participou em projetos de engenharia civil.
- Maçom proeminente: tornou-se uma figura diretiva nas lojas londrinas e foi Grão-Mestre da Grande Loja em múltiplas ocasiões.
Desagulliers foi a ponte intelectual entre a ciência newtoniana emergente e a filosofia maçônica. Para ele, a maçonaria não era um vestígio medieval, mas um veículo para a transmissão de valores iluministas: o método racional, o questionamento de autoridades dogmáticas, e a crença na perfectibilidade humana mediante a educação e a associação fraterna.
John, II Duque de Montagu
John Montagu, II Duque de Montagu (1690-1749), era uma figura política e social de primeira ordem na Inglaterra. Nobre de considerável fortuna, mecenas das artes e da ciência, Montagu exerceu influência como diplomata e cortesão durante os reinados de Jorge I e Jorge II.
Sua importância em 1717 reside no prestígio social que aportou ao movimento maçônico:
- Legitimidade aristocrática: sua condição de duque lhe permitiu conferir respeitabilidade a uma instituição que poderia ter sido percebida como subversiva ou cismática.
- Redes influentes: tinha acesso à corte, ao Parlamento e aos círculos intelectuais mais exclusivos.
- Patronato ativo: utilizou sua fortuna para apoiar iniciativas maçônicas e para proteger a organização de críticas religiosas.
Montagu não era um intelectual como Desagulliers, mas compreendia o valor político e social de uma instituição que reunia homens de diversos estratos sob princípios de igualdade e razão. Sua adesão foi crucial para conferir legitimidade à nascente Grande Loja.
Anthony Sayer
Anthony Sayer foi o primeiro Grão-Mestre eleito da Grande Loja da Inglaterra. Pouco se conhece de sua biografia, mas parece ter sido um homem de negócios próspero, sem dúvida influente na loja que presidia antes de 1717. Sua eleição como primeiro Grão-Mestre foi um reconhecimento à sua autoridade moral entre os maçons londrinos.
A Assembleia de 1717: Gênese da Instituição
O 24 de junho de 1717
A reunião teve lugar na taverna Goose and Gridiron, localizada na paróquia de St. Paul, no coração de Londres. Congregaram-se delegados de quatro lojas então ativas:
- A Loja de St. Paul’s (da catedral)
- A Loja da Coroa e Âncora (Crown and Anchor)
- A Loja do Copo e das Uvas (Rummer and Grapes)
- A Loja do Ganso e da Grelha (Goose and Gridiron, anfitriã da reunião)
O objetivo explícito era estabelecer uma estrutura de governo comum que permitisse coordenar as atividades das lojas locais sem anular sua autonomia individual.
Decisões Fundamentais
Nesta assembleia fundacional tomaram-se decisões que moldariam a maçonaria moderna:
- Criação da Grande Loja: estabeleceu-se um corpo central que atuaria como árbitro em disputas entre lojas e como porta-voz oficial do movimento.
- Eleição do Grão-Mestre: elegeu-se Anthony Sayer como primeiro Grão-Mestre, símbolo da soberania da assembleia.
- Princípios de governo democrático: diferentemente de muitas instituições da época, a Grande Loja operaria mediante assembleias anuais onde cada loja teria direito a voto.
- Compromisso com documentação: encarregou-se a redação de constituições escritas que codificassem os direitos, deveres e rituais da organização.
As Constituições de Anderson: O Ato Fundacional
A Encomenda e a Redação
Após a assembleia de 1717, a Grande Loja comissionou ao reverendo James Anderson, maçom de considerável erudição, para que compilasse as Constituições (também chamadas Old Charges, os Antigos Deveres) da maçonaria.
Anderson não inventou estas normas do nada. Trabalhou a partir de documentos anteriores, manuscritos medievais que circulavam entre as lojas operativas inglesas (como o famoso Regius Manuscript do século XIV), tradições orais, e os estatutos de grêmios de maçons de toda a Europa. Sua tarefa foi sintetizar, atualizar e harmonizar este material disperso em um código coerente adaptado à nova realidade da maçonaria especulativa.
Conteúdo e Significação das Constituições de 1723
Embora a compilação de Anderson se publicasse formalmente em 1723, seu conteúdo refletia o espírito de 1717. As Constituições incluíam:
Princípios Fundamentais
- Crença no Ser Supremo: sem prescrever uma religião específica, requeria-se que todo maçom acreditasse em Deus, o que permitia a coexistência de anglicanos, católicos, judeus e posteriores protestantes dissidentes.
- Obediência à lei civil e autoridade constitucional: os maçons deviam ser “bons cidadãos” respeitosos das autoridades legítimas de seus países.
- Segredo dos mistérios maçônicos: consagrava-se a obrigação de guardar segredo sobre certos aspectos do aprendizado maçônico (sem especificar quais no texto público).
Estrutura de Graus
As Constituições codificavam a existência de três graus sucessivos:
- Aprendiz Aceito (Entered Apprentice): o primeiro nível de iniciação.
- Oficial ou Companheiro (Fellowcraft): nível intermediário de domínio e conhecimento.
- Mestre Maçom (Master Mason): nível máximo, que conferia plena autoridade na loja.
Esta tripartição não era totalmente nova, existia na maçonaria operativa, mas foi sistematizada e sacralizada nas Constituições.
Regime de Lojas
- As lojas tinham autonomia para eleger seus oficiais anuais (Veneráveis Mestres, Vigilantes, Secretários, Tesoureiros).
- Cada loja participava na Grande Loja mediante delegados.
- Estabelecia-se um processo de resolução de disputas e um sistema de apelação.
- Regulamentavam-se as cotas de afiliação e contribuições financeiras.
Obrigações Morais
As Constituições exigiam que os maçons praticassem:
- A benevolência e socorro mútuo: obrigação de assistir a irmãos maçons em necessidade.
- A integridade e honestidade em negócios e relações privadas.
- O respeito aos poderes constituídos: submissão às autoridades legais, embora não à tirania.
- A busca do conhecimento: o compromisso com a educação e a melhora moral contínua.
A Expansão Posterior a 1717
Da Loja ao Movimento Global
O notável é que a Grande Loja da Inglaterra de 1717 não foi uma conjuntura passageira, mas o germe de um movimento que se expandiria exponencialmente.
Para 1730, apenas treze anos após a fundação, já existiam lojas estabelecidas na França, onde a Grande Loge de France se formaria poucos anos depois. A maçonaria chegou às colônias americanas através de viajantes e imigrantes ingleses. Na Alemanha, onde encontraria um terreno particularmente fértil dada a fragmentação política do Sacro Império, floresceria durante o século XVIII sob a proteção de príncipes ilustrados como Frederico II da Prússia.
Espanha e Itália, sob influência papal, mantiveram uma relação conflituosa com a maçonaria, mas mesmo ali se formariam lojas clandestinas desde datas precoces.
O Papel da Maçonaria no Iluminismo
A maçonaria do século XVIII tornou-se um veículo de difusão de ideias iluministas. Lojas como a de Paris atraíram figuras como Voltaire, Montesquieu e posteriormente os enciclopedistas. Na América, maçons como Benjamin Franklin e George Washington jogaram papéis decisivos na Revolução Americana e na fundação da República.
Esta conexão não foi acidental. Os princípios que cristalizaram em 1717, governo representativo, igualdade de direitos, tolerância religiosa, busca racional de conhecimento, eram os mesmos valores que animariam as revoluções políticas do período.
Legado e Significação Histórica
Uma Instituição Perdurável
Quatrocentos anos depois, a maçonaria iniciada em 1717 persiste. A Grande Loja Unida da Inglaterra, sucessora direta daquela assembleia do Ganso e da Grelha, continua funcionando e mantém o sistema de graus e constituições estabelecido no século XVIII, embora com atualizações e emendas que refletem mudanças sociais.
Este é um testemunho único de uma instituição que atravessou revoluções políticas, transformações tecnológicas e mudanças profundas na cosmovisão ocidental, sem perder sua identidade essencial.
Valores Perdurados
A maçonaria moderna continua ancorada nos ideais de 1717:
- Fraternidade universal: a ideia de que homens de diversas origens, crenças e condições podem reunir-se sob princípios comuns de respeito mútuo.
- Liberdade de consciência: a insistência em que cada indivíduo tem direito a formar suas próprias convicções religiosas e políticas, sem imposição de dogma.
- Perfectibilidade humana: a crença em que mediante a educação, a reflexão e a associação com outros, os seres humanos podem melhorar-se continuamente.
- Filantropia ativa: a obrigação de colocar o conhecimento e os recursos a serviço do bem comum.
Relevância Contemporânea
Na era atual, caracterizada por polarização política, fragmentação social e dúvidas sobre a capacidade das instituições, a maçonaria representa um modelo alternativo: uma associação voluntária que funciona mediante consenso, que respeita a diversidade de opinião, que promove a educação e que mantém um compromisso com valores universais.
As origens de 1717 não foram, portanto, um evento histórico remoto, mas o estabelecimento de princípios que seguem sendo revolucionários em sua implicação: que os seres humanos podem governar seus próprios assuntos sem intermediários todo-poderosos, que a razão e o debate franco são melhores guias que o dogmatismo, e que a solidariedade entre cidadãos livres é tanto possível quanto desejável.
Conclusão
Em 24 de junho de 1717, quando delegados de quatro lojas londrinas se reuniram para constituir a primeira Grande Loja da história moderna, não sabiam que estavam inaugurando uma instituição que, para o bem ou para o mal, marcaria profundamente a história do Ocidente.
Figuras como Desagulliers, com sua síntese de ciência newtoniana e aspiração moral; Montagu, com sua confiança de que a aristocracia ilustrada devia ser garante de novas formas de associação; e maçons anônimos cujo nome se perdeu no tempo mas cuja vontade de comunidade persiste, juntos colocaram os alicerces de algo perdurable.
A maçonaria de 1717 foi especulativa no sentido mais profundo: especulou com a possibilidade de que o gênero humano pudesse associar-se, governar-se, educar-se e melhorar-se a si mesmo fora das estruturas coercitivas do poder tradicional. Essa especulação, cristalizada em constituições escritas, em rituais compartilhados e em lojas dispersas pelo mundo, tornou-se uma realidade que perdura.
Para aqueles que hoje buscamos compreender as raízes da democracia moderna, da tolerância religiosa e da associação civil baseada em princípios universais, 1717 marca um ponto de referência imprescindível.